A música “Lacy”, da cantora Olivia Rodrigo, tem chamado atenção por abordar sentimentos complexos como inveja, admiração e insegurança entre mulheres. A letra, marcada por uma narrativa pessoal, levanta discussões sobre competitividade feminina e seus impactos na saúde mental, especialmente entre jovens, uma realidade que atravessa gerações e alimenta problemáticas sociais intensas em diferentes idades. A competitividade entre mulheres não é um fenômeno novo, mas tem ganhado novas camadas com o avanço das redes sociais. A constante exposição a padrões de beleza, estilo de vida e sucesso intensifica sentimentos de comparação e inadequação.
Saúde mental comprometida por sentimentos desenvolvido

Para a psicóloga Jerusca Horst, esse comportamento está diretamente ligado a fatores sociais. “A maioria dos sociólogos e psicólogos concorda que a competitividade feminina é predominantemente socialmente construída”, explica. Segundo ela, a ideia de escassez de espaço para mulheres ao longo da história contribuiu para a sensação de disputa constante. “Criou-se a ilusão de que, para uma subir, outra precisa cair”, completa.
Além disso, a forma como meninas são educadas também influencia esse cenário. A busca por validação externa, muitas vezes baseada na aparência e no comportamento, reforça comparações desde cedo. “A cultura ainda incentiva a rivalidade, o que enfraquece a união e o apoio entre mulheres”, afirma a psicóloga. Os impactos emocionais dessa dinâmica podem ser profundos. Jerusca destaca que a comparação constante pode gerar ansiedade, depressão e até distorções na percepção do próprio corpo. “Quando a admiração se transforma em autocrítica constante, há um impacto direto na saúde mental”, explica. Ela também aponta consequências como solidão, insegurança crônica e até paralisia diante do medo de julgamento.
Esse cenário é intensificado pelas redes sociais, que funcionam como um catalisador. “As pessoas comparam suas vidas reais com recortes editados da vida dos outros, além de associarem valor a métricas como curtidas e seguidores”, diz. Segundo ela, isso distorce a percepção do que é real e aumenta a pressão por perfeição. Isso reflete também em todas as construções na sociedade, podemos refletir em diversos países
A identificação com esses sentimentos aparece de forma clara entre jovens. A estudante Beatriz Miranda afirma que se reconhece na música. “Me identifico justamente por essa comparação com outra garota que parece perfeita em tudo. É um sentimento frustrante e muito comum para mim e outras meninas da minha idade”, relata. Ela conta que já se comparou diversas vezes, principalmente em relação à aparência. “Isso me fez sentir insegura e frustrada por não conseguir ser tão bonita ou inteligente quanto eu achava que as outras eram”, afirma. Para Beatriz, essa competição muitas vezes acontece de forma inconsciente. “Às vezes sentimos necessidade de competir até com amigas próximas, o que mostra que é um problema estrutural”, diz.
Impactos na saúde mental
Assim, ela busca formas de lidar com esses sentimentos. “Tento lembrar que todo mundo tem defeitos e que o que vemos na internet não é a realidade completa”, explica. Para a jovem, discutir mais o tema pode ajudar a reduzir essa pressão. “Quando a gente entende que está sendo levada a competir, fica mais fácil mudar isso e apoiar outras meninas”, completa. Entre mulheres adultas, a competitividade também se manifesta, especialmente no ambiente profissional. Ingrid Freitas afirma que percebe essa dinâmica no dia a dia. “Na maioria das vezes sim, tanto por espaço profissional quanto por vaidade, beleza e até acessórios”, relata.
Ela também reconhece já ter se comparado com outras mulheres. “Principalmente com aquelas que são referência de beleza ou estão sempre bem vestidas. Isso gera um sentimento de inveja ou admiração”, diz. Apesar disso, Ingrid acredita que houve mudanças ao longo do tempo. “Hoje existe mais espaço para todas, e muitas mulheres têm se apoiado mais. Mas ainda há julgamentos e uma cultura antiga que insiste em colocar uma contra a outra”, afirma.
Para ela, manter a autoestima em ambientes competitivos é um desafio constante. “É importante não se diminuir e saber impor limites”, destaca. Como solução, Ingrid defende mais apoio entre mulheres. “Existe espaço para todas. Em vez de julgar, o ideal é ajudar e ensinar, criando vínculos positivos”, completa. Mais do que uma música, “Lacy” abre espaço para uma reflexão necessária sobre como as relações entre mulheres são construídas e de que forma isso impacta a saúde emocional. Em um contexto marcado pela exposição e pela comparação constante, reconhecer esses padrões é o primeiro passo para fortalecer a autoestima e construir relações mais saudáveis e colaborativas.



