Com mais de 498 milhões de reproduções no Spotify, “lacy”, faixa do álbum GUTS (2023), transformou uma experiência íntima da cantora e compositora Olivia Rodrigo em um debate compartilhado por milhares de jovens nas redes sociais. Nascida na Califórnia, nos Estados Unidos, a artista lançou a canção em setembro de 2023 e aborda sentimentos como admiração, inveja e comparação entre mulheres, temas frequentemente associados aos impactos da competição feminina na saúde mental.
Saúde mental e universo feminino

A psicóloga Jerusca Horst, atua de forma Online, reflete sobre esse comportamento que está diretamente ligado a fatores sociais. “A maioria dos sociólogos e psicólogos concorda que a competitividade feminina é predominantemente socialmente construída”, explica. Segundo ela, a ideia de escassez de espaço para mulheres ao longo da história contribuiu para a sensação de disputa constante. “Criou-se a ilusão de que, para uma subir, outra precisa cair”, completa.
Além disso, a forma como meninas são educadas também influencia esse cenário. A busca por validação externa, muitas vezes baseada na aparência e no comportamento, reforça comparações desde cedo. “A cultura ainda incentiva a rivalidade, o que enfraquece a união e o apoio entre mulheres”, afirma a psicóloga. Os impactos emocionais dessa dinâmica podem ser profundos. Jerusca destaca que a comparação constante pode gerar ansiedade, depressão e até distorções na percepção do próprio corpo. “Quando a admiração se transforma em autocrítica constante, há um impacto direto na saúde mental”, explica. Ela também aponta consequências como solidão, insegurança crônica e até paralisia diante do medo de julgamento.
Esse cenário é intensificado pelas redes sociais, que funcionam como um acelerador “As pessoas comparam suas vidas reais com recortes editados da vida dos outros, além de associarem valor a métricas como curtidas e seguidores”, diz. Segundo ela, isso distorce a percepção do que é real e aumenta a pressão por perfeição. Isso reflete também em todas as construções na sociedade, podemos refletir em diversos países
Na escola ou no trabalho: A competição feminina é contínua
A identificação com esses sentimentos aparece de forma clara entre jovens. A estudante Beatriz Miranda, tem 17 anos e é estudante da escola La Salle em Tangará Da Serra, afirma que se reconhece na música. “Me identifico justamente por essa comparação com outra garota que parece perfeita em tudo. É um sentimento frustrante e muito comum para mim e outras meninas da minha idade”, relata. Ela conta que já se comparou diversas vezes, principalmente em relação à aparência. “Isso me fez sentir insegura e frustrada por não conseguir ser tão bonita ou inteligente quanto eu achava que as outras eram”, afirma. Para Beatriz, essa competição muitas vezes acontece de forma inconsciente. “Às vezes sentimos necessidade de competir até com amigas próximas, o que mostra que é um problema estrutural”, diz.
Assim, ela busca formas de lidar com esses sentimentos. “Tento lembrar que todo mundo tem defeitos e que o que vemos na internet não é a realidade completa”, explica. Para a jovem, discutir mais o tema pode ajudar a reduzir essa pressão. “Quando a gente entende que está sendo levada a competir, fica mais fácil mudar isso e apoiar outras meninas”, completa. Entre mulheres adultas, a competitividade também se manifesta, especialmente no ambiente profissional. Ingrid Freitas, de 28 anos é PJ e trabalha como agente de relacionamento na cooperativa Sicoob em Campo Novo dos Parecis, afirma que percebe essa dinâmica no dia a dia. “Na maioria das vezes sim, tanto por espaço profissional quanto por vaidade, beleza e até acessórios”, relata.
Ela também reconhece já ter se comparado com outras mulheres. “Principalmente com aquelas que são referência de beleza ou estão sempre bem vestidas. Isso gera um sentimento de inveja ou admiração”, diz. Apesar disso, Ingrid acredita que houve mudanças ao longo do tempo. “Hoje existe mais espaço para todas, e muitas mulheres têm se apoiado mais. Mas ainda há julgamentos e uma cultura antiga que insiste em colocar uma contra a outra”, afirma.
Para ela, manter a autoestima em ambientes competitivos é um desafio constante. “É importante não se diminuir e saber impor limites”, destaca. Como solução, Ingrid defende mais apoio entre mulheres. “Existe espaço para todas. Em vez de julgar, o ideal é ajudar e ensinar, criando vínculos positivos”, completa.
Concurso de beleza e a busca do primeiro lugar
A segunda princesa do rodeio do GDO Team 2026, Julia Costa, participou recentemente de uma competição feminina de laço e compartilhou com a reportagem sua experiência durante o evento. Segundo ela, além dos desafios da disputa, a conquista também foi marcada por situações de rivalidade entre algumas competidoras, que, em sua percepção, não receberam sua vitória de forma positiva.
Mais do que uma música, “Lacy” abre espaço para uma reflexão necessária sobre como as relações entre mulheres são construídas e de que forma isso impacta a saúde emocional. Em um contexto marcado pela exposição e pela comparação constante, reconhecer esses padrões é o primeiro passo para fortalecer a autoestima e construir relações mais saudáveis e colaborativas.



