
A presença de mulheres na capoeira tem crescido nos últimos anos, ampliando a diversidade dentro de uma prática historicamente marcada pela predominância masculina. Além de fortalecerem a cultura, elas vêm ocupando mais espaço nas rodas e nos processos de formação, embora ainda enfrentem desafios como preconceito e machismo.
No Brasil, estima-se que cerca de 35% dos praticantes de capoeira sejam mulheres. Apesar disso, o número das que alcançam o título de mestras ainda é reduzido, especialmente na capoeira de angola, uma das vertentes mais tradicionais. Mesmo com presença ativa, muitas ainda enfrentam discriminação e diferentes formas de violação.
Em Tangará da Serra, a participação feminina também tem avançado. Mesmo diante de barreiras culturais e sociais, mulheres de diferentes idades seguem se afirmando na capoeira, transformando a roda em um espaço de resistência e inclusão

Machismo ainda é realidade
A técnica administrativa Érika Sena, de 27 anos, pratica capoeira há 15 anos e relata que o caminho das mulheres dentro da modalidade nem sempre é fácil. Segundo ela, ainda existe resistência por parte de alguns homens. “Tem muito machismo. Muitos homens não aceitam ser atingidos por uma mulher e acabam levando isso para o lado pessoal”, afirma.
Além dos desafios mencionados Érika também destaca a presença de assédio dentro da capoeira, apontando que esse tipo de situação contribui para que as mulheres acabem se afastando da prática. Ela cita também sobre as que já são mães, visto que a permanência se torna mais difícil devido à necessidade de conciliar diferentes responsabilidades. “Muitas mulheres acabam desistindo por causa disso e sendo mãe, fica ainda mais difícil conciliar casa, treino e tudo mais”, explica.
Natural de Salvador, ela conta que teve influência da família, mas também enfrentou contradições. “Meu pai era professor de capoeira, mas me incentivou a parar. Acho que era medo, porque ele sabia como funcionava”, relembra.
Capoeira como transformação social
Outra história é a de Daiane Moreira, de 26 anos, que entrou na capoeira por influência do marido, professor da modalidade. Hoje, a prática envolve toda a família e inclusive o filho de quatro anos, que já acompanhava os treinos ainda na gestação. Ela enfatiza que a capoeira vai além do esporte. “Melhora o condicionamento físico, a autoestima e ainda ensina defesa pessoal. Hoje em dia, com tanta violência, isso é importante para as mulheres”, destaca.
Ela também afirma sobre o papel social da capoeira. “Tira crianças da rua, traz disciplina e respeito. Quando a pessoa gosta, ela se dedica”, conta.
Apesar de não ter sofrido machismo diretamente, Daiane aponta outro tipo de preconceito relacionado diretamente a prática da capoeira. “Muita gente acha que é ‘macumba’, mas não é. Aqui tem pessoas de várias religiões. A capoeira é para todos”, explica.

Resistência, liderança e longevidade
Márcia Fátima de Jesus Padilha, conhecida como Brisa, de 54 anos, representa a longevidade feminina na capoeira. Gaúcha, ela começou a praticar o esporte após se mudar para uma região onde não encontrou as danças tradicionais que costumava fazer.
Para ela, a capoeira é um equilíbrio entre corpo, mente e espírito. “A mulher na capoeira quebra a ideia de fragilidade. A gente joga de igual para igual com os homens”, afirma.
Além de praticante, Brisa também é líder e coordena um grupo no município de Nova Olímpia, onde ensina mais de 20 mulheres. Seu trabalho reforça a importância da representatividade feminina dentro da modalidade.
Mesmo com avanços, ela destaca que ainda há barreiras. “Existe preconceito de gênero, racismo e até resistência em investir na capoeira, como se não fosse algo digno de valorização”, relata. Em uma de suas aulas, vivenciou uma situação marcante onde uma criança se recusou a dar a mão a outra por ela ser negra e país relutando em permitir que seus filhos pratiquem o esporte por conta de estigmas ligados a religiões de matriz africanas.



