Hoje em dia, estar conectado o tempo todo virou quase uma obrigação. O celular acompanha cada momento da rotina, seja para estudar, trabalhar, se informar ou se comunicar. Por isso, muitas pessoas têm buscado momentos longe das telas, como deixar o celular de lado e desligar as notificações, para cuidar da saúde mental e ter mais qualidade de vida.
É só abrir o feed para perceber que a vida parece correr em velocidade dupla nas redes sociais. Para frear esse ritmo frenético, muita gente tem recorrido ao analógico. O crochê, a boa e velha leitura, o desenho, as aulas de piano e os esportes estão ganhando um espaço precioso na rotina de jovens e adultos. Afinal, conviver diariamente com a ansiedade, com a armadilha da comparação constante e com a cobrança de estar sempre online cansa.
Essa busca por um respiro longe das telas não acontece por acaso. A última pesquisa da TIC Kids Online Brasil acendeu um alerta ao mostrar que a maioria dos adolescentes e jovens no país não desgrudam da internet, principalmente pelo celular. O problema é que o preço desse excesso chega rápido. Especialistas se cansam de avisar que o bombardeio de telas sabota nossa mente, trazendo ansiedade, falta de foco, baixa autoestima e aquela sensação de esgotamento.

Foi exatamente para colocar o pé no freio que a estudante e artesã Alana Gonzaga Matta, de 19 anos, encontrou no crochê o seu porto seguro. Tudo começou meio por acaso, vendo a mãe tecer. Mesmo sem saber como fazer, Alana pegou as linhas, agulhas e livros emprestados e foi aprender o básico destrinchando tutoriais na internet. O que era só curiosidade virou paixão e, logo depois, um negócio. Hoje, ela cria peças lindas e cuida de sua própria lojinha virtual no Instagram. A ironia é que, embora precise da rede social para vender, é no próprio crochê que ela encontra sua rota de fuga do mundo digital.

“Dependendo da peça, eu fico semanas trabalhando. Uma bolsa pode levar quase um mês para ficar pronta, e um vestido leva ainda mais tempo. Nesse período eu me desconecto bastante das redes e me conecto mais comigo mesma”, conta Alana. Para ela, o artesanato virou um verdadeiro remédio contra a ansiedade, ajudando a colocar a cabeça no lugar: “Quando estou fazendo crochê, fico mais tranquila e consigo organizar melhor meus pensamentos.”
Mas nem sempre foi assim. Antes de descobrir o poder do crochê, Alana enfrentou o peso da dependência dos jogos online. Ela lembra que passava madrugadas inteiras colada na tela, esquecendo de viver o mundo real.
“Eu ficava das uma da tarde até as seis da manhã jogando. Chegou um momento em que eu não queria fazer mais nada. Não queria sair, não queria encontrar amigos e nem tomar banho porque queria continuar jogando“.
O isolamento cobrou seu preço na saúde física e mental. “Vivia praticamente só para aquilo. Comecei a ter problemas de visão e sentia muito estresse por causa dos jogos.” A virada de chave foi lenta, mas mudou tudo. “Hoje eu vejo que o crochê virou um descanso para a mente. Me ajudou a desacelerar e a me tornar uma pessoa melhor.”
O asfalto e os tatames como refúgio
Se para Alana o equilíbrio veio com as agulhas, para Micael Medeiro de Araújo, estudante de Medicina Veterinária de 20 anos, a resposta veio no calçar dos tênis. Ele escolheu a corrida para fugir da pressão do dia a dia.

“Quando eu corro, sinto que consigo desligar um pouco das cobranças e da correria”, conta. Micael corre sem celular. Para ele, esse tempo é sagrado: serve para pensar na vida com calma ou, simplesmente, para não pensar em nada e esvaziar a mente. Ele percebe que sua geração está exausta: “Hoje a gente vive conectado o tempo todo. Por isso, muita gente sente necessidade de parar um pouco e respirar. A corrida limpa a cabeça.”
Arthur Del Pedre de Oliveira, de 19 anos, seguiu um caminho parecido, mas foi parar no tatame. Incentivado por um primo, ele começou a treinar jiu-jítsu e a arte marcial virou sua grande aliada contra a distração digital.
“Os treinos me ajudam muito a sair do celular porque quero melhorar cada vez mais no esporte”, explica Arthur. Ele percebeu que o jiu-jítsu trouxe de volta o foco e a disciplina que o feed do celular tentava roubar. Além disso, ver a própria evolução e a troca de faixas dá uma motivação que nenhuma curtida na internet consegue superar.
Já para Kamilly Vitória de Lima Silva, estudante de Fisioterapia de 20 anos, o esporte foi uma boia de salvação em um momento difícil de tristeza e ansiedade. Fã de futebol, ela encontrou no futevôlei a válvula de escape perfeita.

“O futevôlei acabou sendo uma forma de aliviar esses sentimentos”, lembra. Na areia, o celular vira figurante. Kamilly diz que o que mais ama é a sensação de liberdade e o bem-estar que os treinos trazem, ajudando a controlar o estresse e devolvendo a ela a confiança e a alegria.
Um sinal dos tempos
Para o psicólogo Carlos Eduardo Nunes, formado pela UFMT, esse movimento dos jovens em direção ao mundo offline é um reflexo claro de que estamos nos conscientizando sobre os excessos. “Hoje existe muito mais informação sobre os prejuízos das telas, e isso faz os jovens buscarem alternativas”, explica.
Ele pontua que o excesso de estímulos rápidos gera aquela urgência em checar notificações a cada minuto, além de alimentar a armadilha de se comparar com vidas perfeitas do Instagram. É aí que os hobbies e os esportes entram como um santo remédio: eles trazem a sensação de conquista real, promovem o olho no olho e ajudam a descarregar o estresse.
Mas o psicólogo faz questão de lembrar que ninguém precisa virar um eremita digital. “A tecnologia faz parte da nossa vida, usamos para tudo. O segredo é o equilíbrio entre o online e o offline.” Segundo ele, esse hábito de viver a vida real precisa ser cultivado desde a infância, com o apoio das famílias e das escolas.No fim das contas, seja cruzando linhas de crochê, correndo no parque ou treinando no tatame, a mensagem desses jovens é uma só: dar um tempo das telas não é virar as costas para a tecnologia. É, na verdade, uma tentativa bonita e urgente de recuperar o tempo presente, de cuidar de si e de lembrar como é bom viver a vida ao vivo.




