O cacau, principal matéria-prima do chocolate, desempenha papel relevante na agricultura brasileira. Tradicionalmente cultivado na Bahia e no Pará, o cultivo do fruto tem se expandido para novas regiões do país, impulsionado por projetos que visam diversificar a produção agrícola e ampliar as oportunidades da agricultura familiar. Em Tangará da Serra, município localizado no estado de Mato Grosso, o cacau conquistou espaço para uma nova produção por meio do Programa Municipal Cacau Sustentável, estabelecido pela Lei Ordinária n° 347/2025, publicada em 23 de outubro de 2025. Com o objetivo de implantação no âmbito municipal, a Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA) conduz o programa.
O projeto permitiu o estabelecimento de parcerias com instituições de pesquisa e assistência técnica, como a Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (EMPAER) e a Comissão Executiva do Plano de Lavoura Cacaueira (CEPLAC), localizada em Alta Floresta, região norte de Mato Grosso. Segundo o secretário municipal de Agricultura, Alceu Luiz Grapeggia, 72 anos, a iniciativa surgiu da busca por uma nova fonte de renda para os produtores, visando fortalecer a agricultura familiar no município. Embora o projeto ainda esteja em fase de implantação, a Seapa já iniciou a distribuição de mudas aos produtores participantes, com previsão inicial de atendimento de até um hectare por propriedade. Além disso, alguns produtores que decidiram investir em áreas maiores, de aproximadamente 20 hectares, adquiriram mudas em outras regiões e já iniciaram o cultivo.

Foto: Imagem de arquivo
Aposta no cacau marca início de novo ciclo produtivo
Entre os produtores participantes está o gestor agropecuário e produtor rural Douglas Henrique Leite Chiamulera, 37 anos. Segundo ele, o interesse pelo cacau surgiu a partir da oportunidade de diversificar a produção da propriedade, apostando em uma cultura de alto valor agregado e potencial de crescimento na região. Chiamulera relata que o processo de implantação da lavoura começou com a análise de solo, definição das variedades mais adequadas e instalação do sistema de irrigação. “Buscamos utilizar práticas que preservem os recursos naturais, como manejo adequado do solo, uso racional da água por meio da irrigação eficiente, monitoramento de pragas e doenças, adubação baseada em análise de solo e manutenção da cobertura vegetal para conservação da umidade e redução da erosão”, explica.
Atualmente, o acompanhamento técnico da propriedade é realizado por um consultor contratado em Rondônia, responsável por orientar o desenvolvimento da lavoura e auxiliar nas decisões relacionadas ao cultivo.

Foto: Douglas Chiamulera
Os solos de Tangará da Serra apresentam, em sua maioria, boa fertilidade natural, com predominância de texturas argilosas e mistas, características que favorecem o desenvolvimento de diversas culturas agrícolas, incluindo o cacau. O projeto desenvolvido em Tangará da Serra também é sustentado por pesquisas que avaliam a cultura da região. De acordo com o engenheiro agrônomo Welington Procópio, de 60 anos, o Centro Regional de Pesquisa e Transferência de Tecnologia (CRPTT) de Tangará da Serra está produzindo mudas de cacau e implantando uma área experimental para acompanhar o desenvolvimento da cultura nas condições locais. A iniciativa busca verificar como a cultura responde ao clima local e quais práticas de manejo podem favorecer a produção. A pesquisa deve nortear as ações necessárias para que o cacau apresente resultados satisfatórios e possa ser adotado por mais produtores em Tangará da Serra. “O CRPTT de Tangará da Serra está produzindo as mudas e montando um experimento com cacau, sombrado Banana BRS Terra Anã e com Mogno Africano irrigado na época da seca”, explica Welington.
Chocolatier: a profissional que agrega valor ao cacau
O desenvolvimento da cadeia produtiva do cacau não depende apenas do cultivo da fruta, mas também de profissionais especializados na transformação da matéria-prima. Nesse contexto, destaca-se a atuação da chocolatier, responsável pela elaboração de chocolates artesanais e derivados do cacau. A profissão exige técnicas e conhecimento sobre toda a produção de chocolates artesanais, que reúne características sobre o processamento do cacau, técnicas de confeitaria e desenvolvimento de produtos.
Mesmo em estágio inicial, o cultivo do cacau começa a refletir na economia local. O avanço da cultura tem atraído empreendedores que veem no cacau uma oportunidade de ampliar a produção e criar novos negócios no município. No entanto, o setor ainda enfrenta desafios para transformar essa expectativa em realidade. Para a chocolatier, Audiley Freitas Sancoré, 44 anos, proprietária da empresa Chocoey Chocolates Artesanais, que funciona em Tangará há tantos anos, um dos pontos que precisam avançar é a aproximação entre os projetos de produção rural e os empreendedores que podem agregar valor ao fruto por meio da fabricação de chocolates e derivados.
Segundo a empresária, o fortalecimento da cadeia produtiva depende não apenas do cultivo do cacau, mas também da criação de oportunidades para que a matéria-prima seja beneficiada no próprio município. O interesse da empresária pela cultura surgiu após visitas técnicas e capacitações em Rondônia, onde conheceu propriedades produtoras de cacau e o processo de fabricação desde a amêndoa até a barra (Bean to Bar). A experiência motivou novos investimentos na empresa e o início do cultivo de mudas próprias, com o objetivo de futuramente produzir chocolates a partir da matéria-prima cultivada pela própria marca.
Para Audiley, o crescimento da produção sustentável em Tangará da Serra pode representar um passo importante para consolidar uma identidade regional ligada ao cacau, ampliando as possibilidades de negócio e fortalecendo a economia local. “Para empresas como a Chocoey, significaria maior acesso à matéria-prima de qualidade, possibilidade de desenvolver produtos com identidade territorial e fortalecimento do conceito de produção local”, comenta.
Formação profissional pode acompanhar expansão do setor
À medida que a atividade com o cultivo do cacau avança, cresce também a necessidade de profissionais capacitados para atuar na transformação da matéria-prima, o cacau. Nesse contexto, a capacitação profissional surge como um elemento importante para conectar o campo às oportunidades de negócios geradas pelo setor. Em Tangará da Serra, o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) já desenvolve cursos nas áreas de gastronomia, confeitaria e panificação.
Segundo o gerente do Senac, Alan Araújo, 43 anos, os alunos aprendem técnicas relacionadas à produção de doces, bolos, tortas e outros produtos que utilizam o chocolate como um derivado do cacau. Além do conhecimento técnico, os cursos abordam também temas ligados à gestão, precificação e empreendedorismo, preparando os participantes para atuar no mercado ou no próprio negócio.
A qualificação profissional ganha ainda mais relevância diante da possibilidade de expansão da cultura do cacau no município. Para Alan, o crescimento da produção local pode estimular a criação de novas capacitações voltadas especificamente ao processamento da amêndoa e à fabricação de chocolates, fortalecendo diferentes etapas da cadeia produtiva. “Se houver um novo mercado, o Senac pode abrir novas oportunidades de cursos e capacitações para atender essa demanda”, afirma.
O desenvolvimento da cadeia produtiva do cacau também acompanha mudanças no cenário nacional. Publicada no Diário Oficial da União (DOU) na segunda-feira, 11 de maio de 2026, foi sancionada a Lei n° 15.404, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estabelece percentuais mínimos de cacau para chocolates e derivados comercializados no Brasil. A medida busca garantir mais transparência ao consumidor e valorizar a matéria-prima utilizada pela indústria. Nesse contexto, o programa implantado em Tangará da Serra coincide com um período de valorização da cadeia cacaueira no país.



