Etarismo desafia mercado de trabalho em uma sociedade cada vez mais longeva

Trabalhadores aposentados seguem ativos, acumulam experiência e produtividade, mas ainda enfrentam barreiras impostas por estereótipos ligados à idade.

O aumento da expectativa de vida da população brasileira tem provocado mudanças significativas na composição da força de trabalho. Especialistas da ABMedicina http://abmedicina.com.br alertam que, em poucos anos, a maior parte da população adulta será formada por pessoas acima dos 50 anos, cenário que exige adaptações por parte das empresas, do poder público e da sociedade.

Apesar dos avanços da ciência e da melhoria das condições de saúde, trabalhadores mais velhos ainda enfrentam barreiras para ingressar ou permanecer no mercado de trabalho. Entre os principais desafios está o etarismo, termo utilizado para definir o preconceito relacionado à idade.

Especialistas em gestão de pessoas sugerem que o preconceito etário costuma estar associado à ideia equivocada de que profissionais mais velhos são menos produtivos ou têm maior dificuldade de adaptação às novas tecnologias, segunto texto publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, sabemos que essa percepção desconsidera fatores como experiência, conhecimento acumulado e capacidade de tomada de decisão desenvolvidos ao longo da trajetória profissional.

Ambiente de trabalho – idades variadas. Google Images

Mesmo após a aposentadoria, muitos brasileiros permanecem aptos e interessados em continuar exercendo atividades profissionais. Além da necessidade financeira, a permanência no trabalho está frequentemente ligada ao desejo de manter a autonomia, a convivência social e o sentimento de utilidade.

Por outro lado, reconhecemos que o envelhecimento traz mudanças naturais, como redução do ritmo de trabalho em determinadas atividades e necessidade de períodos maiores de recuperação física e mental. Essas características, porém, não impedem a contribuição desses profissionais para as organizações, para ser util ao meio em que vive, para interagir com os mais próximos e também no trabalho.

Diante desse cenário, empresas como o Mercado Souza, Doceria Auramel têm sido incentivadoras ao adotar políticas de inclusão etária, promovendo ambientes de trabalho mais diversos e integrados. A convivência entre diferentes gerações pode favorecer a troca de conhecimentos e fortalecer a inovação dentro das equipes. Com uma população cada vez mais longeva, conforme os gráficos abaixo apontam, o combate ao etarismo torna-se uma questão estratégica para o desenvolvimento econômico e social. Valorizar a experiência dos trabalhadores mais velhos e garantir oportunidades iguais de participação no mercado de trabalho são medidas consideradas essenciais para enfrentar os desafios das próximas décadas

GRÁFICOS DO IBGE – UM BRASIL COM MAIS IDOSOS

Os dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o Brasil envelhece em ritmo acelerado. A população com 60 anos ou mais passou de 10,8% para 15,8% entre 2010 e 2022, enquanto a participação dos jovens continua diminuindo.

Gráfico 1 – Evolução da população com 60 anos ou mais (%)

1980                                    6,1%

1991                                    7,3%

2000                                    8,6%

2010                                    10,8%

2022                                    15,8%

Fonte: IBGE – Censos Demográficos 1980 a 2022.

Gráfico 2 – Redução da população jovem (0 a 14 anos)

Ano                                       População de 0 a 14 anos

1980                                    38,2%

2010                                    24,1%

2022                                    19,8%

Fonte: IBGE – Censo 2022.

Gráfico 3 – Crescimento da população de 65 anos ou mais

2010                                    14,1 milhões

2022                                    22,2 milhões

Fonte: IBGE – Censo 2022.

Crescimento de 57,4% em apenas 12 anos.

Gráfico 4 – Índice de envelhecimento no Brasil

(Número de pessoas idosas para cada 100 crianças de 0 a 14 anos)

Ano                                       Índice

2010                                    44,8

2022                                    80,0

Fonte: IBGE – Censo 2022.

A economista Denise G. Freire faz apontamentos em sua pesquisa que a população idosa de 60 anos de idade ou mais cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões, entre 2012 e 2024, um aumento percentual de 53,3%. O nível de ocupação desse grupo foi de 24,4%, sendo de 34,2% entre os homens e de 16,7% entre as mulheres. Ou seja, cerca de 1 a cada 4 pessoas idosas estava ocupada em 2024.

As taxas de pessoas trabalhando informalmente (13,2%) e de completa ociosidade (2,9%) eram bem inferiores às apresentadas pela média da população, 16,2% e 6,6%. Essas e outras informações integram o capítulo de “Estrutura econômica e mercado de trabalho” de um dos principais estudos do IBGE, a “Síntese de Indicadores Sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira 2025”. O estudo traz outros dois capítulos: “Educação e Padrão de vida e distribuição de rendimentos”.

Em 2024, entre 60 e 69 anos, quase metade dos homens (48,0%) e pouco mais de um quarto das mulheres (26,2%) estavam ocupados. Com 70 anos ou mais, 15,7% dos homens e 5,8% das mulheres ainda permaneciam ocupados no mercado de trabalho.

“O aumento da expectativa de vida e as mudanças ocorridas nos arranjos familiares nos últimos anos, somados à alta informalidade no mercado de trabalho brasileiro e à reforma ocorrida em 2019 no Sistema de Previdência Social, são fatores que tendem a levar à permanência das pessoas no mercado de trabalho por mais tempo”, explicou  Denise Guichard Freire que é economista e tecnologista no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como especialista em demografia econômica e mercado de trabalho, ela se destaca pelas análises sobre a juventude brasileira. Todo o seu trabalho esta publicado no site do IBGE.

Em 2012, o nível de ocupação dos idosos com 60 anos ou mais era de 22,0%, atingindo 23,1% em 2019, mas caindo para 19,8% (2020) e 19,9% (2021) nos anos de pandemia de Covid-19. A recuperação da ordem de dois pontos percentuais por ano se deu em 2022 (21,3%) e 2023 (23,0%), chegando a 24,4% em 2024.

Segundo Denise, ao longo da série histórica da pesquisa, percebe-se que o percentual de idosos no mercado de trabalho cresceu. “Então houve a pandemia e teve uma queda expressiva no nível de ocupação, porque era um grupo que realmente precisava se proteger. Mas, passado o período mais crítico da pandemia, esse grupo tem retomado sua participação no mercado de trabalho, atingindo o maior percentual em 2024”, explicou. A inserção das pessoas idosas no mercado de trabalho por posição na ocupação ocorre, principalmente, pelo trabalho por conta própria (43,3%) e como empregador (7,8%), em comparação com as pessoas de 14 anos ou mais no mercado de trabalho, que apresentaram 25,2% e 4,3% nessas posições, respectivamente.

RENDIMENTOS

O rendimento médio real habitual do trabalho principal para as pessoas de 60 anos mais (R$ 3.108) foi 14,6% superior ao das pessoas de 14 anos ou mais. As mulheres idosas receberam R$ 2.718, um valor 33,2% inferior ao recebido pelos homens, R$ 4.071, e as pessoas pretas ou pardas, R$ 2.403, 48,7% menor que as pessoas brancas, R$ 4.687. Enquanto no grupo de 14 a 29 anos, o valor do rendimento-hora foi de R$ 13,30, para as pessoas com 60 anos ou mais foi quase o dobro, R$ 25,60.

Em 2024, a taxa de desocupação (6,6%) foi a menor da série histórica iniciada em 2012, abaixo da registrada em 2014 (7,0%). Já o nível de ocupação atingiu o nível mais alto da série (58,6%), o dos homens alcançando 68,8% contra 49,1% para as mulheres. Porém, os ocupados sem vínculo de trabalho ampliaram a participação a partir de 2021, chegando, em 2024, a 46,5%, enquanto a população ocupada com vínculo era de 47,9%. Entre os ocupados sem vínculo, a taxa de crescimento foi maior para os ocupados sem carteira (4,2%), do que para os trabalhadores por conta própria (1,8%).

Em números absolutos, o crescimento total das pessoas ocupadas em 2024, comparativamente a 2023, alcançou 2,6 milhões de pessoas. A população ocupada total atingiu o nível mais elevado da série anual, com cerca de 101,3 milhões de pessoas no ano. O nível de ocupação das mulheres com ensino superior completo (75,9%) foi 3,0 vezes maior que o das mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto (25,3%). Entre homens, o nível de ocupação daqueles com ensino superior completo (86,0%), 1,6 vezes maior que o de homens sem instrução ou com ensino fundamental incompleto (52,6%).

Os jovens (14 a 29 anos), que representavam cerca de 1/3 das pessoas ocupadas em 2012, perderam participação a cada ano, com destaque para o ponto mínimo em 2020 (25,8%), em decorrência da pandemia de COVID-19. Nos anos seguintes, houve uma lenta recuperação e chegaram em 2024 com 26,5% das pessoas ocupadas no mercado de trabalho.

Por sua vez, as pessoas com 50 a 59 anos e as pessoas idosas (60 anos ou mais) aumentaram a sua participação entre 2012 e 2024. Em 2012, esses dois grupos, somados, totalizavam 19,1% das pessoas ocupadas e, em 2024, 24,3%. A participação da parcela etária intermediária, de 30 a 49 anos, registrou tendência de crescimento até 2020 (51,3%), iniciando posteriormente trajetória de queda até 2024, quando atingiu 49,2%, patamar próximo ao observado em 2015.

Para saber mais: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45343-ibge-mostra-que-um-a-cada-quatro-idosos-trabalhava-em-2024

Longevidade: um tema que atravessa todas as causas

Se engana quem pensa que esse é um assunto para organizações que já trabalham com pessoas idosas. Essa transformação demográfica afeta todas as áreas do impacto social. Segundo dados do Mapa das OSCs do Ipea (2023), o Brasil contava com aproximadamente 879 mil organizações da sociedade civil ativas, e estas organizações, que trabalham com saúde, educação, habitação, cultura, mobilidade, trabalho ou meio ambiente, vão precisar também estar atentas a:

  • Adaptar programas e serviços para um público mais velho e diverso
  • Garantir recursos voltados a cuidados contínuos, inclusão digital, segurança e protagonismo da pessoa idosa
  • Enfrentar o idadismo institucional e social
  • Criar estratégias intergeracionais que contemplem todas as fases da vida

Leia mais sobre o tema: Envelhecimento Populacional: Desafios e oportunidades para as ONGs

ONGs, empresas, institutos e políticas públicas vão precisar repensar suas práticas, serviços e abordagens. Como criar soluções que incluam uma população mais velha, com novos desejos, necessidades e realidades? Como garantir que o envelhecimento seja sinônimo de dignidade, inclusão e participação; não de exclusão e invisibilidade? O programa “Viva mais Cidadania” faz parte de um acordo interministerial para enfrentamento à violência patrimonial, a implementação da Rede Nacional de Gestores Estaduais em Direitos Humanos da Pessoa Idosa e formalização da campanha “Envelhecer é o nosso futuro”.

  • Ampliação de impacto com colaborações intersetoriais
  • Desenvolvimento de novas soluções participativas e tecnológicas para longevidade
  • Inserção da população idosa em redes de conhecimento, cultura e economia
  • Fortalecimento da rede de cuidados com protagonismo social à assistência a idosos.

Espera-se envolver diferentes vozes dispostas a construir ações mais inclusivas, estratégicas e transformadoras. 

Respeito ao direito de envelhecer

Fonte: Google Images

Nessa perspectiva de promover condições dignas em face ao crescimento do envelhecimento populacional é que o MDHC vem ampliando as ações que visam fortalecer a promoção do envelhecimento com respeito à diversidade populacional do país.

Alexandre da Silva é o atual secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Ele também preside o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDPI). O secretário reforça que as ações implementadas pelo MDHC visam, sobretudo, trazer dignidade e auxiliar os governos e organizações para o enfrentamento de problemáticas como o analfabetismo e poucos anos de escolaridade, acesso digno à saúde e criação de mecanismos para facilitar acesso a benefícios, manifestações culturais, esporte e lazer. @alexandrefisio

Srª Neuza e o seu negócio lucrativo. Créditos: Elisete Santos

Para Dona Neuza Gonçalves Santa, de 62 anos, pensionista do INSS, cozinhar é um prazer e tem sido este caminho para complementar a renda, pois ela faz pamonha e curau para vender aos amigos próximos. “Eu sempre gostei de cozinhar. As receitas vieram da minha família e fazem parte da nossa tradição. Comecei fazendo para parentes e amigos, e eles passaram a encomendar. Aos poucos, percebi que poderia transformar isso em uma fonte de renda. Graças a Deus, tenho saúde, força e muita vontade de trabalhar. Claro que hoje eu respeito mais meus limites, mas ainda consigo realizar minhas atividades com tranquilidade. O trabalho me mantém ativa no corpo e na alma”, declara. O negócio está dando certo, já montou grupo no aplicativo e expandiu as vendas para toda a cidade.

Audio da Srª Neuza Gonçalves Santana, aposentada do INSS.
IDILAINE DE FATIMA LIMA – Enfermeira responsável. Creditos: Elisete Santos

A médica Raissa Bezerra Santas Reich e a enfermeira responsável Idilaine de Fátima Lima que atuam no PSF Santa Isabel, Tangará da Serra, concordam que envelhecer não significa perder a capacidade de sonhar ou produzir. “Cada pessoa tem seu ritmo, e, enquanto houver saúde e vontade, pode-se continuar contribuindo para a sociedade. A idade traz experiência, e isso tem muito valor”, afirma a médica. As recomendações da enfermeira estão voltadas às observações do biotipo de cada pessoa que vão desde respeitar os limites do corpo, manter acompanhamento médico periódico, investir em atividade física, cuidar da alimentação, estimular a mente, valorizar o descanso, até a busca de satisfação no que faz. “O envelhecimento não deve ser encarado como sinônimo de incapacidade. Muitas pessoas chegam aos 60, 70 e até 80 anos com excelentes condições de saúde e capacidade produtiva. O importante é que o trabalho seja realizado de forma segura, prazerosa e compatível com a condição de cada indivíduo”, destaca a enfermeira, que faz atendimento humanizado com agendamentos prévios para a população dos bairros Santa Isabel e Vila Horizonte.

A professora de Arte e artista plástica Susan Santos, aposentada há 11 anos, depois de trabalhar por 27 anos na rede estadual de ensino, considera inaceitável e triste quando alguém é julgado apenas pela idade. “A experiência conta muito. Nós aprendemos bastante ao longo da vida e temos muito a ensinar. O ideal seria que as empresas, as pesoas, o mercado, valorizassem mais esse conhecimento.”  Susan se dedica a ensinar pinturas em tela. Tem alunos de todas as idades. Fez de seu aprendizado algo que beneficia outras pessoas porque é uma atividade relaxante e transforma o labor em uma terapia. @susan.artes31.

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