Cultura pop constrói pertencimento entre jovens do interior

Mesmo longe dos grandes centros culturais, jovens mato-grossenses acompanham tendências globais e fortalecem laços por meio da música e das comunidades de fãs.

Impulsionada pelas redes sociais, a cultura pop deixou de ser apenas entretenimento e passou a influenciar comportamentos, hábitos e formas de pertencimento entre fãs. Os jovens de cidades do interior, como na região de Tangará da Serra, localizada no interior de Mato Grosso, a cerca de 240 quilômetros de Cuiabá, estão distantes dos grandes centros responsáveis por receber shows e eventos internacionais. Ainda assim, jovens do município a acompanham em tempo real os lançamentos de artistas musicais, além de tendências, debates e conteúdos que rapidamente passam a fazer parte do seu cotidiano. A interação constante no ambiente online faz com que jovens compartilhem opiniões e participem de comunidades virtuais ligadas a artistas que admiram, conectados por uma cultura digital marcada pelo imediatismo e pelo engajamento coletivo

Nas últimas semanas, a expectativa em torno do novo álbum da cantora norte-americana Olivia Rodrigo movimentou plataformas digitais e comunidades de fãs em diferentes partes do mundo. Um dos principais nomes da nova geração do pop, a artista de 23 anos conquistou milhões de ouvintes ao retratar experiências da juventude, como relacionamentos, inseguranças e processos de autodescoberta. Em Tangará da Serra, jovens também acompanharam as novidades divulgadas pela artista. O fenômeno evidencia como a internet aproximou públicos de diferentes localidades e transformou o consumo de música em uma experiência coletiva.

De acordo com Rafael Rodrigues Lourenço Marques, professor do curso de Jornalismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e pesquisador das áreas de Teorias da Comunicação, Ética Jornalística e Cultura, o envolvimento dos fãs com artistas e lançamentos musicais vai além do consumo de entretenimento. Segundo o docente, esse processo está relacionado ao funcionamento da indústria cultural.

Marques que atua na Unemat/Campus de Tangará da Serra explica que a indústria cultural transforma a arte em produto e coloca cada lançamento em uma rede maior de consumo. “Você gera expectativa por um produto, mas esse produto está vinculado a outros vários produtos, como uma rede para ter o máximo de lucro possível”, comenta.

O professor acredita que o público pode desenvolver uma postura crítica diante dessas produções. “Temos que saber o que fazer com esse conteúdo. Somos nós, o público, que temos que nos emancipar e fazer isso de forma positiva”. Assim os fãs deixam de ocupar uma posição exclusivamente passiva e passam a participar da circulação de informações, teorias, interpretações e conteúdos relacionados aos artistas que acompanham. “Você vira coautor desse processo”. Essa participação constante também fortalece o sentimento de pertencimento entre os fãs.

A internet também ampliou as possibilidades de interação entre esses grupos. De acordo com o professor “Essa ideia de interior e capital, graças a globalização e a internet, muitas dessas questões estão superadas, eu e Tangará da Serra posso ver todas as mesmas  informações que alguém lá dos Estados Unidos, ou o Japão” os jovens do interior podem acompanhar lançamentos, debates e tendências simultaneamente a fãs de outras regiões do Brasil e do mundo. 

Segundo Marques, “A propagação de determinados padrões identitários não é um fenômeno recente, mas ganhou maior alcance com a cultura digital”. Apesar da força das interações online, o pesquisador defende que o pertencimento não deve ser exclusivo de redes sociais. “A gente não pode deixar tudo para o virtual, também devemos celebrar as relações vivas, humanas e concretas”, afirma. Para ele, a cultura pop não apenas conecta fãs a artistas, mas também aproxima pessoas que encontram, em interesses compartilhados, um espaço de comunidade.

Já para Paulo Victor Ribeiro de Souza, psicólogo, com atuação e estudos na área de psicologia organizacional, campo que analisa as relações humanas, os comportamentos e os processos de interação, o consumo de música e entretenimento pode exercer forte influência sobre as emoções e a construção da subjetividade dos indivíduos. Segundo o especialista, a relação entre música e comportamento é estudada há décadas pela Psicologia e envolve desde aspectos emocionais até formas de interação social.

Para Ribeiro, a música não funciona apenas como entretenimento, mas também como uma ferramenta capaz de mobilizar sentimentos, memórias e processos de identificação. “As músicas podem alterar o estado psicológico da pessoa”, menciona. Ele conta que letras, ritmos e melodias do estilo pop carregam significados que podem influenciar a forma como as pessoas interpretam experiências e se relacionam com o mundo.

Ao falar sobre a participação dos jovens em comunidades de fãs, Ribeiro destaca que crianças e adolescentes tendem a ser mais vulneráveis às influências do ambiente social. de acordo com o psicólogo, nessa fase da vida, a construção da identidade ainda está em desenvolvimento, fazendo com que a busca por aceitação e pertencimento tenha um papel importante. “O adolescente procura amigos que admire e tenta se adequar a eles. Com o tempo, vai identificando o que gosta e não gosta”, explica.

Para Ribeiro, a ansiedade ligada ao consumo digital surge quando as expectativas criadas no ambiente online entram em conflito com a realidade. “As redes mudam nossa relação com o tempo e a existência”, afirma. Nesse contexto, padrões de vida, aparência e sucesso frequentemente divulgados nas plataformas essa exposição também pode gerar frustrações relacionadas à distância dos grandes eventos culturais e à comparação com estilos de vida divulgados na internet.

Como forma de reduzir esses impactos, o especialista defende que o mais importante não é abandonar as redes sociais, mas transformar a relação estabelecida com elas. “Diversificar é sempre a melhor estratégia”, destaca. Para ele, buscar outras formas de lazer, convivência e socialização ajuda a ampliar as possibilidades de experiências e contribui para uma relação mais saudável com o entretenimento e a tecnologia.

Para os jovens 

A estudante Emmanuely Lahr dos Santos, de 20 anos, acompanha regularmente lançamentos de artistas internacionais, especialmente da cantora Taylor Swift, um dos principais nomes do pop mundial, e do BTS, grupo sul-coreano que ajudou a popularizar o K-pop em diversos países. Ela afirma que as redes sociais permitem acompanhar as novidades praticamente ao mesmo tempo que fãs de outras regiões.

Segundo a jovem, a repercussão dos lançamentos nas plataformas digitais costuma despertar curiosidade e acelerar o consumo de novas músicas. “Ver as pessoas comentando que as músicas são boas influência que eu queira ouvir rápido”, conta. Ela também é fã de Olívia Rodrigo e acompanhou recentemente o lançamento do novo álbum da artista, escutando na data de lançamento e compartilhando as músicas em suas redes sociais.

A estudante também acredita que a distância dos grandes centros pode dificultar o acesso a shows e eventos presenciais. “Eu iria a mais shows se tivesse por perto”, afirma. Ainda assim, ela não se sente excluída da comunidade de fãs, já tendo viajado para assistir o show de Taylor Swift em São Paulo, 2023. Para Manu, como é conhecida, o acesso às redes sociais permite que pessoas do interior participem das mesmas discussões e tendências que fãs de grandes cidades, como São paulo, onde acontecem a maioria dos shows internacionais, “Sempre sabemos qual artista está famoso no momento, independente do lugar”, destaca.

Arquivo da entrevistada Emmanuely Lahr no show da artista Taylor Swift.

Além da música, a identificação com valores e posicionamentos dos artistas é um dos fatores que mantém seu interesse. Segundo ela, “Atitudes como o respeito aos fãs e o apoio a determinadas causas sociais influenciam minha admiração”. Emmanuely conta que também costuma compartilhar conteúdos relacionados aos artistas que acompanha, como vídeos e fotos da redes, e feitos por fãs, contribuindo para a divulgação e circulação de informações dentro das comunidades de fãs.

Foto da entrevistada Emmanuely no show da artista Taylor Swift em 2023.

A administradora de 25 anos, Daniely Silva Nogueira representa uma experiência diferente dentro da cultura dos fãs. Embora não costume acompanhar regularmente os lançamentos de artistas internacionais, ela acompanha artistas pop desde da infância, e afirma que as redes sociais exercem influência sobre a forma como consome conteúdos relacionados à música e ao entretenimento.

Entrevistada Daniely Nogueira acompanhando lançamentos musicais por meio das plataformas digitais.

Conforme Daniely, a distância dos grandes centros urbanos ainda gera a sensação de estar longe de algumas experiências presenciais. “Me sinto de fora”, afirma ao comentar a dificuldade de acesso a shows e eventos realizados em outras regiões do país. Neste ano, a jovem queria comparecer ao festival Rock in Rio, um dos maiores eventos de música do país, mas não foi possível pela agenda de trabalho e pela distância do evento. 

A jovem também relata que, em alguns momentos, sente necessidade de acompanhar determinados assuntos para participar das conversas que acontecem nas redes sociais. Além de consumir conteúdos relacionados aos artistas que admira, Daniely também já ajudou a divulgar publicações e acredita que páginas e perfis dedicados a artistas aumentam seu engajamento com determinadas comunidades de fãs. Para ela, mesmo morando no interior, é possível participar da mesma cultura de fãs vivenciada por pessoas de grandes cidades, acompanhando o que os artistas compartilham.

Daniely escutando músicas em uma plataforma de streaming durante sua rotina.

Mais do que a música em si, o que mantém seu interesse por determinados artistas é a possibilidade de criar uma conexão com suas trajetórias. De acordo com Daniely, acompanhar histórias, conteúdos e momentos compartilhados pelos artistas gera uma sensação de proximidade que fortalece o vínculo entre fãs e ídolos.

Além de acompanhar artistas e lançamentos, Daniely Nogueira utiliza a fotografia como forma de registro pessoal.

Fã do cantor norte-americano Frank Ocean e da banda Alice in Chains, Luis Gustavo da Silva Moura, de 21 anos, acompanha lançamentos de artistas internacionais e acredita que as redes sociais têm papel importante na forma como o público consome música atualmente. Conhecido por misturar R&B, soul e pop alternativo, Frank Ocean conquistou reconhecimento mundial por letras que abordam temas como identidade, relacionamentos e experiências pessoais. Já o Alice in Chains é uma das bandas mais influentes dos anos 1990, marcada por músicas que exploram questões emocionais e existenciais.

Gustavo, conta que costuma reservar momentos de maior tranquilidade para conhecer álbuns e músicas inéditas como após o expediente no trabalho. Ainda assim, reconhece que o ambiente digital influencia diretamente a repercussão dessas obras. “Definitivamente sim”, afirma ao comentar o impacto das redes sociais nesse processo.

Diferentemente de outros fãs, Gustavo afirma não seguir páginas dedicadas exclusivamente a artistas e também não considera que participe da mesma cultura de fãs vivenciada em grandes centros urbanos. Para ele, a relação com a música está mais ligada à identificação pessoal do que à participação em comunidades específicas.

Segundo Gustavo, os principais fatores que o fazem continuar acompanhando um artista vão além das músicas. A identificação com a obra e as referências presentes em seu trabalho são elementos que fortalecem seu interesse e mantêm a conexão com os artistas ao longo do tempo.

Assim podemos ver que mesmo por meio de músicas, artistas e tendências que mudam constantemente, a experiência de ser fã permanece marcada pela busca por conexão. Em um cenário cada vez mais conectado, essas relações mostram que a cultura pop também pode ser um espaço de construção de vínculos, identidade e pertencimento.

Mas afinal, o que é cultura pop?

A cultura pop, ou cultura popular contemporânea, reúne manifestações culturais amplamente consumidas pela sociedade, como música, cinema, séries, videogames, moda e conteúdos das redes sociais. O termo surgiu da expressão “cultura popular” e ganhou força a partir da segunda metade do século XX, seu principal objetivo sempre esteve ligado ao entretenimento, e tinha como principal função levar produtos culturais a um grande público. 

Atualmente, artistas, filmes e tendências culturais não apenas entretêm, mas também ajudam a construir identidades, comunidades de fãs e espaços de discussão sobre temas presentes no cotidiano. Hoje, artistas, filmes, séries e fenômenos culturais movimentam debates que vão além do lazer, envolvendo temas como representatividade, saúde mental, pertencimento e participação social.

Alguns termos da reportagem

Cultura do imediatismo: Comportamento marcado pela necessidade de consumir e reagir a conteúdos de forma instantânea, impulsionado pelas plataformas digitais.

Indústria Cultural: Conceito por Theodor Adorno e Max Horkheimer, descreve a transformação da cultura em mercadoria. Nessa lógica, a arte perde seu valor crítico e estético para se tornar um produto fabricado em série, visando unicamente o lucro, o consumo e a padronização das massas.

Para saber mais

Henry Jenkins – Cultura da Convergência.

O pesquisador norte-americano analisa como os conteúdos circulam entre diferentes mídias e como os fãs deixaram de ser apenas consumidores para se tornarem participantes ativos na produção e disseminação de informações.

Manuel Castells sociedade em rede e impactos da comunicação digital 

O sociólogo espanhol discute como as tecnologias digitais transformaram a comunicação, a circulação de informações e as relações sociais em escala global.

Zygmunt Bauman — consumo, identidade e relações sociais na modernidade líquida.

O sociólogo polonês reflete sobre consumo, identidade e pertencimento na sociedade contemporânea, mostrando como indivíduos e relações passam a ser influenciados pela lógica do mercado.

Edição e entrevistas: Evelin Maria de Souza Gonçalves.

Entrevistas, texto e fotos: Nathally Marinho.

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