Tangará da Serra: 50 anos de história e futuro  

Após meio século de emancipação, a cidade constrói sua identidade unindo tradição, inovação e esperança
A foto mostra uma vista aérea de Tangará da Serra. No centro tem rotatória pricipal da avenida Brasil, com palmeiras e postes de luz.
Tangará da Serra em uma visão aérea que mostra o desenvolvimento da cidade. Foto: Prefeitura Municipal

Tangará da Serra completou 50 anos em 2026. Emancipada do município de Barra do Bugres em 1976, a cidade nasceu como fruto do esforço coletivo de pioneiros que enfrentaram o isolamento e a falta de estrutura para construir seus primeiros alicerces. Meio século depois, a memória de seus precursores continua sendo essencial para a compreensão de sua trajetória, conquistas e desafios futuros. 

Entre os pioneiros que fizeram história e ajudaram a transformar parte do cerrado da região sudoeste de Mato Grosso em cidade, está o senhor Tamir Torres, que faleceu no mês de abril, aos 88 anos. Ele chegou em Tangará da Serra em outubro de 1962, acompanhado de sua primeira esposa, Jada Torres, e de sua filha, Rozimar Torres, vindo de Paranavaí – PR em busca de melhores oportunidades e vida digna para sua família. Em entrevista, Raniere Nascimento Torres Cavalcante, de 35 anos, filha do segundo casamento de Tamir, relembra parte da trajetória e os desafios enfrentados pela família. 

Registro da família formada entre Tamir Torres e Jada Torres. Arquivo: Raniere Torres

“Meu pai conta que saiu de Barra do Bugres (a 77km de Tangará) no amanhecer, mas chegou na cidade apenas à noite, pois precisaram parar e descarregar o caminhão para conseguir subir a serra Tapirapuã, e parte da bagagem teve que ser levada nas costas durante o trajeto”.  

O relato de Raniere Torres é uma memória que se fez presente durante toda a vida do senhor Tamir, tornando-se um retrato das condições de inúmeras famílias que chegaram por volta dos anos 1960. As dificuldades no caminho para chegar até a cidade são apenas partes de um processo que exigiu determinação e resistência para aqueles que se aventuraram em desbravar as terras férteis tangaraense. 

Assim como a história de Tamir Torres, muitas famílias que chegaram em Tangará, buscavam a explorar as terras que cercavam a cidade. O plantio de arroz começou como precursor para a exploração do solo. Logo após, os produtores abriram espaço ao plantio de milho, feijão, amendoim e café, que resultaram em colheitas fartas. A cafeicultura dominou o mercado local, tornando-se ao final de 1970 a “máquina” que girava a economia da cidade. No entanto, segundo o livro História de Tangará da Serra, de Carlos Edinei de Oliveira, “a ausência de políticas voltadas aos pequenos produtores levou, já nos anos 1980, ao abandono de muitas lavouras de café, marcando uma mudança significativa na base produtiva do município”. 

Com o declínio da cafeicultura nos anos 1980, Tangará da Serra precisou diversificar sua economia, e as casas de comércio que surgiram ainda na década de 1960, passaram a ganhar mais destaque. Entre elas está a Selaria 1º de Maio, fundada por Nilo Torres, pai de Tamir, atualmente localizada na rua Manoel Dionísio Sobrinho. O empreendimento que surgiu para atender as demandas do campo, atravessou gerações e hoje é administrado por sua filha Raniere, que após aprender o ofício do pai, é também a responsável pela produção de arreios e artefatos em couro. 

Ao mesmo tempo em que locais como a Selaria 1º de Maio são preservadas por sua tradição, Tangará abre espaço para uma nova geração de empreendedores que trazem para o comércio inovação, tecnologia e uma visão ampla do futuro. Dentre esses jovens, Ariane Caroline Vieira, de 30 anos, inspirada no legado de sua família, constrói uma trajetória de sucesso no comércio local, contribuindo para o desenvolvimento econômico da cidade. 

Ariane Vieira, advogada e mestra em Direito pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), nascida e criada em Tangará da Serra, onde sua família é pioneira,  traz para o comércio local sua paixão por moda e compromisso com o desenvolvimento da cidade, no entanto, não esconde os desafios do mercado atual. Segundo levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL), em Mato Grosso, mesmo com desemprego de apenas 3,3% no segundo trimestre de 2024, muitas empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas por falta de mão de obra qualificada. 

Conforme Ariane, uma das maiores dificuldades para empreender em Tangará está ligada à escassez de mão de obra qualificada. Uma vez que para ela, mesmo oferecendo formas de capacitação por meio de treinamentos ofertados pela franquia de moda e calçados que administra, a rotatividade de colaboradores acaba sendo frustrante para o empreendedor. No entanto, o cenário não a intimida, pois o acolhimento da população tangaraense com sua franquia e parcerias com outras empresas é motivo de alegria, uma vez que as atitudes fomentam o desenvolvimento econômico local. 

“Vejo que Tangará da Serra está em constante evolução, sendo uma cidade que possui uma expectativa de crescimento gigante para o futuro”, destaca Ariane, cuja ligação com o município vai além do lado empreendedor. 

Vídeo gravado para o especial 50 anos de Tangará da Serra, onde Tamir Torres conta trechos de sua história. Arquivo: Prefeitura Municipal

Educação e identidade tangaraense 

Se a agricultura e o comércio estruturaram Tangará da Serra, foi a educação que construiu sua identidade. Para o professor Edson César Castoldi, de 56 anos, que leciona a disciplina de História há 33 anos nas escolas estaduais e municipais de Tangará, o ambiente escolar é o espaço onde se preserva a memória e se constrói cidadãos capazes de mudar o mundo e principalmente o ambiente em que está inserido. 

De acordo com o professor, é através da educação que mantemos vivas as memórias dos povos originários, mais especificamente a etnia Haliti Paresí que entre os séculos XVIII e XIX foram escravizados e utilizados na extração da poaia e da seringa, resultando em um processo de extrema violência ao povo indígena, e aos pioneiros no município, que vieram em busca de uma vida melhor. 

Castoldi chama a atenção a um detalhe que costuma passar despercebido, no centro da cidade, localizada na Praça dos Pioneiros, estátuas de migrantes pioneiros ganham destaque na história do município, o que para ele possui de fato relevância histórica, porém a ausência de menção aos povos originários, é uma “falha grave” da administração municipal, uma vez que o território tangaraense possui 11.423km², mas 5.843km² são reservas indígenas do povo Paresí, ou seja, 53% de seu território pertence aos povos originários. 

Crianças desfilando no 50º aniversário de Tangará com imagens dos anos iniciais da cidade. Foto: Natalia Nunes

“No desfile comemorativo dos 50 anos de Tangará da Serra, as escolas que desfilaram abordaram diferentes momentos da colonização e do crescimento da cidade. Acredito que de alguma forma toda essa preparação para o desfile contribuiu para a aprendizagem sobre a formação do município, sobre o trabalho e vida dos pioneiros”, comenta o professor.   

Ele recorda ainda que, algumas reportagens publicadas pelo jornal Diário da Serra, de anos atrás, que faziam menção ao pioneirismo da cidade, foram trabalhadas em sala de aula por ele, para ampliar o conhecimento sobre o município, mas ainda são insuficientes.

Castoldi chegou em Tangará no ano de 1994 e desde então acompanhou de perto as mudanças no sistema educacional da cidade, no entanto, por mais que tenha acompanhado avanços importantes relacionados a infraestrutura, introdução tecnológica e a qualidade da merenda, tece críticas quanto a valorização dos profissionais da educação, uma vez que o discurso de enaltecimento dos educadores é utilizado apenas como campanha eleitoral, mas que não é refletido, por exemplo, na valorização salarial dos mesmos.  

Por mais que a educação tangaraense tenha vivenciado vários progressos no decorrer dos anos, ainda possui desafios que devem ser corrigidos, e a integração da história local nos currículos escolares, assim como a devida valorização dos profissionais da área da educação, são mudanças imprescindíveis que devem ocorrer. 

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